Carta de Solidariedade à Mirtes

20/07/2020

Nós, mulheres reunidas no coletivo Articuladas, vimos a público prestar solidariedade a Mirtes Renata, mulher negra cuja história de dor extrema pela morte do seu filho Miguel, vítima de violência branco-colonial, ganhou ampla divulgação durante o último mês.

Mirtes trabalhava durante a pandemia de COVID-19, e a ela foi negado o direito a quarentena. Informou inclusive que contraiu o coronavírus, muito provavelmente na casa dos patrões. No início de junho, Mirtes precisou levar Miguel, seu filho de cinco anos, para o trabalho consigo. Não tinha com quem deixar seu filho. Escolas fechadas, redes de acolhimento fragilizadas, Miguel com saudade de estar mais tempo com a mãe. Como tantos outros filhos de trabalhadoras domésticas, Miguel foi com a sua mãe para o trabalho, lugar que habitualmente é o cenário de traumas e abusos para tantas crianças brasileiras em situação semelhante. 

A Mirtes foi delegada a função de passear com os cães da família Corte Real, motivo pelo qual ela precisou deixar seu filho por alguns minutos aos cuidados da patroa branca, Sari Corte Real. A criança estranhou o ambiente, talvez pela aspereza do trato que conhecidamente é dispensado pela casa grande aos filhos das trabalhadoras domésticas. Chorou procurando o cuidado de sua mãe e foi colocado, perversamente, por Sari Corte Real dentro do elevador de serviço, de onde foi arremessado à morte.

A história de Mirtes desnuda acúmulos históricos de violências, abusos, maus tratos, precarização e horror a que são submetidas as trabalhadoras domésticas, majoritariamente mulheres negras (63%), as quais passam boa parte das suas vidas cuidando das casas, famílias e da reprodução das vidas de pessoas brancas. A frase é “quase da família” é uma falácia amplamente repetida pelas elites para desmobilizar essas trabalhadoras e perpetuar abusos.

Em 05/07 Sari Corte Real foi entrevistada no horário nobre da TV Globo - emissora que finge adotar uma postura antirracista, visando lucrar com o ativismo que está na moda. A encenação de um sofrimento vazio, as perguntas calculadas, a performance de “pobre menina branca” foram coroadas com a resposta sincera e perversa do pacto assassino da branquitude que Sari encarna. Quando questionada sobre suas ações - o que você faria de diferente? Se sente culpa pelo crime que cometeu? Pelo sofrimento que causou?  - Sari responde “Fiz tudo que podia”.

Revela, com tranquilidade, que tudo que poderia fazer era arremessar Miguel para a morte. Não pararia de fazer as unhas, não telefonaria para que Mirtes subisse para ver seu filho, não desceria com Miguel em busca da mãe. Tudo que ela poderia fazer era arremessá-lo para a morte.

Sari é a voz da branquitude, a personificação do seu modus operandi. A morte de 60 mil pessoas anualmente vítimas de homicídio neste país, 70% negros, 90% homens, 55% jovens serve de pista para elucidar o motivo de a descaso ser a única (in)ação que Sari entendeu ter sido possível dispensar para Miguel. Para a branquitude brasileira, a vida de jovens-homens-negros, ainda que ainda crianças, é a intersecção interditada, como denuncia a pesquisadora e ativista baiana Vilma Reis.

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