Articuladas lançam Mini-doc “Violência institucional, mulheres e resistências”

O mini-doc é resultado de uma estratégia coletiva das Articuladas para visibilizar e debater as diferentes formas de expressão da violência institucional na vida cotidiana das mulheres. Para Luciene Alcinda de Medeiros, Historiadora, doutora em Serviço Social/PUC-Rio, a ausência de políticas públicas para as mulheres da Baixada Fluminense e a precariedade dos equipamentos públicos de saúde são uma das expressões da violência institucional.

“Na Baixada Fluminense parir acaba sendo um ato de violência, quer seja 
pelos poucos leitos obstétricos, quer seja pelo próprio atendimento.” 
Luciene Alcinda de Medeiros

Para construção do roteiro tivemos como referência os cinco tipos de violência do “Mapeamento de Fluxos de Atendimento para Mulheres – estratégias e ações contra a violência institucional no Rio de Janeiro” e os conteúdos do “3º Curso de Formação Defensoras Populares da Baixada Fluminense”, promovido pela Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro em parceria com as Articuladas. Conforme Rafaela Albergaria, membro das Articuladas, a organização da sociedade civil tem um papel fundamental para que a violência institucional seja reconhecida na sociedade.  

“ Se organizar, mapear e dar visibilidade para essas violências é 
importante pois, a primeira condição para alguma violência ser 
reconhecida como alvo de política pública é o mapeamento.”
Rafaela Albergária.

Ao todo foram entrevistadas 12 mulheres que lutam contra a violência institucional nos seus territórios, no seu cotidiano profissional e nas suas trajetórias de vida. Segundo Leila de Oliveira, militante das Brigadas Populares e Defensora Popular da Baixada Fluminense, a condição de moradia precária e ausência de políticas de habitação de interesse social na sua trajetória de vida fez com que ela experimentasse uma sobreposição de violências institucionais. 

“Eu morei numa divisa de território e lá a gente via muitas coisas ruins, então, pra uma criança, é um trauma que pode não parecer naquele momento que vai fazer diferença (...) mas ao longo do tempo (...) você vai percebendo que isso é uma coisa ruim, a sociedade negligencia o cuidado com as pessoas.” 
Leila de Oliveira

O encarceramento em massa sempre foi utilizado no Brasil como instrumento de controle da pobreza ou como vingança social. Segundo o mini-doc o Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo, ficando atrás somente de EUA e China.Como ativista do movimento de mães de Manguinhos, do Fórum Social de Manguinhos, da Frente Estadual de Desencarceramento e da Agenda Nacional pelo Desencarceramento, Eliene de Oliveira denuncia o violência institucional experienciada pelos jovens negros moradores de favela. Com frequência esses jovens são considerados suspeitos, sofrem com o encarceramento em massa e têm seus direitos negados pelo próprio Estado.

“Então, esse estado que diz pra você que você ganhou o benefício de bom comportamento pra ir pra rua, pra ir pra sua casa ficar privado de liberdade (...), é o mesmo estado que aponta o fuzil pra sua cabeça dizendo que ele está ali, que ele pode decidir se ele vai te matar ou se ele vai te encarcerar.” 
Eliene Vieira.

A produção do mini-doc foi realizada durante a pandemia, o que impôs algumas dificuldades para garantir a qualidade da imagem e do som no ambiente doméstico, já que todas as entrevistas foram realizadas via Plataforma Zoom respeitando as medidas de distanciamento social da Covid-19. Os empecilhos encontrados durante este processo refletem a própria dinâmica de trabalho das mulheres em ambiente doméstico, uma vez que estamos submetidas a múltiplas jornadas de trabalho que mesclam cuidado doméstico e atividades militantes. Apesar dos empecilhos para realização o mini-doc forneceu uma linguagem alternativa para interpretação do “Mapeamento de Fluxos de Atendimento para Mulheres – estratégias e ações contra a violência institucional no Rio de Janeiro” e ampliou a possibilidade de difusão do debate sobre violência institucional.

“A gente precisa avançar no sentido de lutar pela garantia dos direitos sociais, mas a gente 
também precisa reconhecer que o próprio Estado é violador desses direitos. A gente precisa ver em que
 medida a gente consegue pressionar as instâncias responsáveis pra garantia desses direitos que foram conquistados ao longo da luta política,pelos movimentos sociais e pelos movimentos de mulheres”
 Suellen Guariento

O reconhecimento da violência institucional na vida das mulheres é o primeiro passo para a formulação de políticas públicas interseccionais, que corroborem para enfrentar o racismo, o sexismo e opressões correlacionadas. O segundo passo é o fortalecimento de mulheres que ocupam espaços institucionais e operam as políticas públicas desde uma perspectiva de defesa de direitos. Sendo estes espaços tradicionalmente organizados por estruturas patriarcais, burocráticas e técnicas precisamos construir estratégias de resistência que criem alternativas a este cenário

“No judiciário só 35% dos cargos das 1ª e 2ª instâncias são ocupados por mulheres, 
obviamente que só isso não garante nada, mas se você tem a representatividade você faz com 
que essas instituições tenham dentro delas essas pessoas, aí você tem a possibilidade de, pelo 
menos, fazer a disputa institucional. Não é fácil, a gente sabe, mas é um caminho.” 
Marilene de Paula.

Texto escrito por Caroline Rodrigues e Emanuele Anastassopoulos

Para saber mais sobre o lançamento veja:  https://www.facebook.com/articuladasrj/videos/245196267285629
 
Assista o mini-documentário aqui: https://www.youtube.com/watch?v=gTVPwuBR7bc&t=318s




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