Politização do Cuidado em Tempos de COVID-19

22/07/2020
Por Caroline Rodrigues

A quarentena decorrente da Covid-19 impôs a todos uma nova forma de uso do espaço da casa. Seja para aqueles que podem ficar isolados ou para os que precisam sair, todos passaram a cuidar de si e dos seus de forma diferente. Ou pelo menos deveriam. Exemplos das mudanças na vida cotidiana não faltam: preparar comida diariamente para todos da família, cuidar das crianças 24 horas sem enviá-las para escola, compartilhar o espaço da casa com toda família, acolher membros da família que estão sem casa, adaptar o espaço físico da casa para as novas demandas do trabalho remoto, planejar a rotina incluindo um exercício físico, ajudar aos idosos com suas demandas para que evitem sair, limpar as maçanetas, chaves, sapatos todas as vezes que se chega a casa, higienizar as compras por completo todas as vezes que se vai ao mercado etc. Certamente a lista poderia ter tantos outros cuidados que passaram a fazer parte da rotina. Mas será que os percebemos como práticas de cuidado?

Embora todos nós dependamos um dos outros para sobreviver o cuidado é um tema pouco discutido pela sociedade. Historicamente coube às mulheres, mães, avós, irmãs o cuidado na família. Também as babás, empregadas domésticas, cuidadoras de idosos. Nos hospitais as auxiliares de serviços gerais, técnicas de enfermagem, enfermeiras, médicas, psicólogas, fiosioterapeutas, assistente sociais também estão na linha de frente dos cuidados em saúde. Diante a pandemia do Covid-19 temos duas oportunidades: seguir reproduzindo o padrão de gênero que atravessa os cuidados ou politizá-los!

Já parou pra refletir que “o pessoal é político”? Que todos esses cuidados que uma enfermidade como a Covid-19 nos impõe devem ser compartilhados com todos os membros da família assim como são de responsabilidade do Estado? A omissão do cuidado por parte do Estado é sempre uma forma de violência institucional que, numa situação de pandemia como a que vivemos, pode significar a morte de muitas pessoas. Mas o que vale uma vida para o Estado?

O “Mapeamento de fluxos de atendimento para mulheres no Rio de Janeiro”1 mostra que a vida das mulheres tem valido pouco para o Estado. Diante de tamanha violência institucional as próprias mulheres têm construído estratégias articuladas de ação.

Infelizmente a pandemia da Covid-19 tem nos mostrado um aumento da violência institucional contra ás mulheres. Tais violências de expressam na ausência de exames capazes de detectar o Covid-19, no reduzido número de Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) disponíveis, na falta de equipamentos de proteção individual (EPI) para as trabalhadoras da saúde, na ausência de ações de saúde mental para essas trabalhadoras, na suspensão de direitos das gestantes de serem acompanhadas no parto, na demora para aprovação do Programa de Renda Emergencial. No caso do Rio de Janeiro, o confinamento social já gerou um aumento de 50% dos casos de violência doméstica segundo o plantão do Tribunal de Justiça do Estado2. Diante deste cenário as estratégias de ação articuladas por mulheres são cada dia mais necessárias.

Na linha da politização dos cuidados é tempo de valorizar a si e ao outro, de enxergar os corpos de mulheres, boa parte negras, que nos cuidam; de perceber que a omissão do Estado numa pandemia significa violência institucional e que, essa violência atingirá de forma desigual a todos. Mulheres estão sujeitas a maior violência.

#covid19 #saúdenegra #saúdedasmulheres

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